Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poesia de Carlos Drummond

Infância
Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.


No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.


Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!


Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


video


"Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons."
Carlos Drummond de Andrade

Por: Mateus do Valle (poesia encontrada) e Andressa Câmara (fez o vídeo)

2 comentários:

  1. Esse poema lembra o que Mário Quintana falou sobre a infância: "a infância é uma invenção do adulto". Vocês não acham? Que imagem de infância Drummond nos passa?
    Parabéns pelo blog!
    Um abraço.

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  2. Ele passa uma imagem semelhante! Drummond nos passa no texto uma contradição na ideologia de infância do adulto, que diz que a infância é um período muito bom da nossa vida, que só nos divertimos com os amigos, mas a infância dele (na poesia) não é bem assim! Ele era muito sozinho, mas mesmo assim sua história era melhor que a de Robinson Crusoé, mesmo com a monotomia de sua vida, era bem melhor que viver na solidão após um naufrágio (é o que mostra a história de Robinson Crusoé)!
    Estou certa?

    Um abraço
    Andressa Câmara

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